"De tanto ver triunfar as nulidades; de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça. De tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar-se da virtude, a rir-se da honra e a ter vergonha
de ser honesto".

(Rui Barbosa)


sábado, 10 de abril de 2010

O gerente do mundo

Pela manhã é sempre a mesma coisa. Enquanto centenas de adeptos da caminhada se exercitam pelas passarelas da PA-275, em busca da forma perdida, ele sobe a avenida, rumo à parte central da cidade. O que aquele cidadão acima dos sessenta, cabeleira quase totalmente branca faz todos os dias é uma incógnita que não vem ao caso (se viesse, talvez ele não fosse merecedor desta crônica), mas o certo é que o seu caminhar impávido e sobranceiro autoriza a todos a imaginar que o mundo não moveria um mísero centímetro sem a sua participação. Não assinaria embaixo, porém, se alguém resolvesse inquirir sobre a ordem do dia e ele respondesse simplesmente: “vou ligar o motor do mundo”. Não se sabe se ele é tão importante assim, a ponto de fazer girar as pesadas rodas do mundo, mas, talvez tivesse autonomia para assinar a ordem de serviço, aliás, por falar em assinar, a caneta Bic que nunca sai do bolso da camisa bem passada de algodão e que provavelmente assinaria a papelada em questão seria melhor utilizada do que muita gente que anda por aí, assinando a torto e a direito um monte de bobagens. Nunca, jamais alguém portou uma caneta Bic com tanta dignidade.

As primeiras horas da manhã, juntamente com as árvores que enfeitam a rodovia acabam sendo testemunhas involuntárias da trajetória de um cidadão altivo, porém afável, que não sonega um pequeno cumprimento a quem quer que seja, desde ao mais idoso atleta de final de semana, que quer apenas envelhecer com saúde; ao cidadão de meia idade que caminha com medo de um enfarte; ao garoto marombado, que a bem da verdade só quer exibir a recente massa muscular, adquirida à custa de algumas horas de academia e muitas, mas muitas latas de suplemento e algumas “cositas mas” e a moça espevitada, que desfila a bordo do sua leggy lilás, consciente do efeito devastador que provoca.

Senil ninguém vai dizer que ele é, sob pena de cometer uma injustiça com os já entrados em anos. Decrépito, ou com ares de aposentado não seria o caso, afinal, ele também é visto no decorrer do dia como que a verificar se o andamento da cidade acontece conforme a programação.

Nesse momento, saber como se chama não é importante, o mesmo pode se dizer de sua real ocupação, afinal , ninguém em sã consciência imaginaria que ele fosse uma espécie de gerente do mundo, entretanto, como personagem ele poderia qualquer um, João, Alexandre, José, Cipriano, enfim, figuras do nosso dia-a-dia, que com leveza levam a vida e mesmo em tempos bicudos, revelam que ela ainda vale a pena.

(Artigo publicado no jornal HOJE 408 - Coluna do Marcel)

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